domingo, 5 de abril de 2026

O BANCO DE MINHA MÃE

 

A história é interessante e instrutiva.

No início da década de 1950, quando eu tinha 14 anos, meu velho era Representante de produtos farmacêuticos, sendo funcionário da Cia. Química Merck Brasil S. A. Ganhava bem mas viajava muito.

Tal missão lhe obrigava a permanecer durante 25 dias de cada mês, fora do convívio da família, viajando de trem, de ônibus e até na boléia de caminhões, por quatro estados nordestinos.

Era um tempo em que apenas a Caixa Econômica Federal de Pernambuco poderia ser considerada “o Banco do povão”. Mesmo assim, concentrando atividades para Pessoas Físicas apenas na carteira de “Depósitos para Poupança”. Daí, talvez, inspirando a atual denominação nacional: “Caderneta de Poupança”.

Nessa época nem se falava em pessoa modesta ser titular de conta em Bancos. Só possuíam talões de cheques, as grandes empresas ou donos de firmas.

Fui da mesma época – 1956 – em que, até funcionários do Banco do Brasil recebiam seus ordenados em envelopes. Não tinham direito a ter uma Conta Corrente a não ser que fossem clientes da Casa Bancária Magalhães Franco Ltda.

Arthur Guaraciaba Lins dos Santos, meu dito cujo pai, recebia seu suado dinheirinho em espécie, levava pra casa, selecionava os pagamentos do mês, colocava os valores devidos em pequenos envelopes, passando para mim a responsabilidade de efetuar os pagamentos. Tudo organizadinho.

Aproveitando as ausências de meu pai, mamãe se dedicava, com mais afinco, às costuras, geralmente de roupas infantis, da vizinhança. Havia um conchavo com meu velho para evitar roupas de adultos, incluindo, naturalmente, homens.

Mas é aí que a “porca torce o rabo”! Aliás, vale explicar o verbete de “Aurélio”: A expressão significa que se trata do momento decisivo, uma situação se complica e exige firmeza para ser resolvida, originando-se no meio rural, onde apartar brigas de porcos puxando-os pelo rabo era uma tarefa desafiadora.

Houve um tempo em que mamãe “se ajeitou” com a vizinha, que era esposa de um Sargento do Exército, o maestro Jair Pimentel.

D. Neuza, mãe de quatro filhos, portanto, sem muito tempo, para costurar encomendas de fardamentos para soldados do 14º Regimento de Infantaria, propôs dividir o trabalho.

Na maior moita minha velha topou e isso permitiu às duas, ganho maior. E para papai não entender que se tratava de costura de roupas masculinas, ela, por precaução, escondia os tecidos, já cortados para costurar, embaixo da cama do casal, perto do penico.

Mas era preciso ocultar o dinheiro auferido por essas tarefas. Quando recebeu a primeira “dinheirama”, decidiu guardar as cédulas nos livros de meu pai, numa estante envidraçada, que vivia fechada.

Certo dia, ao procurar uma cédula, não se lembrava em qual livro havia guardado os 50 Cruzeiros, que era significativo valor para a época e ficou muito preocupada porque teria que utilizar, doravante, novo esconderijo e não, simplesmente, a gavetinha da máquina Singer.

Requisitou-me para ajudá-la a desarrumar tudo e verificar em qual volume havia guardado a bufunfa.

Nunca imaginei que os livros do meu velho tivessem locais específicos, selecionados por assuntos. Cada qual o seu lugar. Mas, durante a procura, houve a mistura. Mas, felizmente, a cédula apareceu.

Dias depois, teve que anunciar ao “dono da biblioteca”, que havia cutucado seus livros, explicando que o dinheiro era de suas economias, sem falar nas roupas dos soldados, que era o ônus da prova de “infidelidade contratual”.

Não houve bronca, mas aproveitei para lhe dar um conselho:

“Mamãe, abra uma Caderneta de Poupança na Caixa para depositar suas economias, porque livro não é Banco pra se guardar dinheiro!”

A CRIANÇA QUE AINDA EXISTE EM CADA UM DE NÓS.

 

Jogo de “bila”

Tínhamos hora para tudo, lembro bem. Tínhamos hora para brincar, hora para dormir, hora para estudar e fazer o dever de casa – isso, claro, sem incluir a hora de obedecer e à quem obedecer.

O domingo era sagrado. Pela manhã a Santa Missa.

A tarde era livre para passear, para o cinema e, até mesmo para a Cidade das Crianças. Mudando da adolescência para a juventude, a manhã era do futebol ou da praia.

Assim, o que mudou do nosso tempo de criança para o tempo das crianças atuais?

A criação, respondo eu. A forma que os pais de hoje criam seus filhos – muito diferente da forma com que foram criados.

O pai de antigamente tinha o hábito de “passear com o filho de 16, 16 ou 18 anos” incentivando para que ele “começasse a gostar de mulher – no sentido sexual, mesmo”. Era um incentivo à iniciação.

Os pais de hoje mudaram. Optam por outras práticas, que, se por um lado são aceitas e compreendidas por boa parte da sociedade, por outro, precisarão ser aprovadas por Deus – e o ônus de tudo recairá sobre o pai, e, mais tarde, sobre o filho que aderiu a essas práticas.

Falo tudo isso porque, a primeira vez que entre num cabaré – lugar de antigamente, onde mulheres faziam sexo por dinheiro – quem me “conduziu e esperou pela consumação da prática”, foi um irmão mais velho, devidamente autorizado (também financiado) pelo meu pai.

Grosso ou não, sem educação ou não, mas pensando no “bom encaminhamento” do filho, quando um pai ouvia do filho algum pedido “fora do projeto de encaminhamento adotado”, respondia-lhe com um tabefe e um safanão, além de suspender por tempo indeterminado a “mesada das estripulias”.

Hoje é diferente. Hoje, se um pai ouve um pedido estrambótico de um filho, tipo:

– Paizão, meus seios cresceram bastante com a medicação que tomo. Estou precisando de um “soutien”!

Em resposta, totalmente diferente do pai de antigamente, escuta:

– Bebê, qual é a cor que você prefere e a pontuação adequada?!

Arre égua!

É assim, ou não é?

Com visão futurística, os pais e mães de antigamente ensinavam os filhos a obedecer. Em qualquer lugar ou situação, na ausência dos pais, os irmãos mais velhos tinham que ser obedecidos. Eles, os irmãos mais velhos, seriam punidos se, nessas situações, não se fizessem obedecer.

Outra vertente infantil era a brincadeira. A forma de brincar, e com o que brincar.

As escolas adotavam na grade curricular, uma matéria rotulada de “Trabalhos Manuais”, que era um incentivo ao desenvolvimento e ao despertar dos jovens em algum tipo de profissão. Também, como incentivo, havia na grade curricular a matéria “Canto Orfeônico”, forma de despertar na juventude o gosto pela música, como Músico.

Em casa os pais “ajudavam” dando aos filhos, não um “soutien”, mas, uma serra tico-tico, um alicate, pregos, serrote e madeira para que eles fizessem os seus próprios brinquedos.

Felizmente, ainda não havia Fábrica Estrela, fabricante dos brinquedos plásticos – o que acabou eliminando qualquer tipo de incentivo à juventude.

Foi assim que apareceram o Mestre Vitalino e a Zabé. Primeiro em casa, depois a profissionalização para custear a vida.

O currupio

Lembro bem que andávamos horas à procura de tampinhas de garrafas. Com elas fazíamos brinquedos mil – mas o preferido era o “currupio”, onde fazíamos dois furos e neles passávamos um barbante. Tal qual a foto postada acima.

Navegação nos mares para a guerra

O pior castigo que os pais de antigamente aplicavam aos filhos, era “proibir de brincar”. Qualquer que fosse a brincadeira. E aquilo doía. O “não brincar” era um castigo muito maior que o próprio castigo.

Quantas vezes, punido justamente por algum malfeito, eu ia para o quintal. Ali, cumprindo castigo, era esquecido pelos de casa por várias horas. Era nesse momento que os anjos da bondade tomavam conta de mim.

Eu pegava uma bacia, enchia de água até as bordas superiores. Transformava aquela bacia num açude e às vezes, até num oceano, onde navegavam meus barquinhos de papel – que eu aprendera fazer, também, durante as aulas de “Trabalhos Manuais”!

O castigo se transformava em algo lúdico, bom, poético e uma prática escolar ganhava valor.

Autor do Texto : José Ramos

sexta-feira, 3 de abril de 2026

O MOLEQUE FESTEIRO

 


Na encosta de uma serra muito alta e a pique, de Santa Maria de Taguatinga, entre barrocas e cardos, morava um homem muito rico e mau, que fizera voto de entoar uma ladainha, todas as noites pela passagem de São João.

Eram verdadeiras festas, muito concorridas, em que o pecado das danças livres excedia à devoção religiosa. O homem residia só e jamais conhecera os carinhos de uma esposa ou a alegria do sorriso de um filho ...

Como companheiro tinha apenas um molecote, um cão e um gato preto. O menino era o emissário perpétuo por quem mandava os convites para as festas de São João. Era só nessa ocasião que abria a bolsa e deixava os patacões correrem a mãos cheias; nos outros dias não aliviava a lágrima de um pobre ou de uma viúva necessitada.

Certa vez, o pequeno mestiço partiu em busca dos convivas e voltou só: ninguém o acompanhara. As casas dos amigos estavam fechadas e ninguém respondera a seu chamamento.

O homem indignou-se e disse ao menino que fosse buscar quem quer que fosse, rico ou pobre, até mesmo o Pé-de-Garrafa, se o encontrasse. Era imprescindível o cumprimento do voto. No caminho apareceu um cavaleiro elegante, muito bem vestido, tinha esporas de prata e estava em traje de festa.

Ao convite do emissário do homem rico, respondeu afirmativamente e acompanhou-o ao sítio das barrocas e dos cardos. Era um só convidado, porém a festa começou logo.

Depois da ladainha dançou muito, fazendo tinir as esporas, que tiravam fogo no assoalho. Nunca o homem rico e miserável vira um convidado assim: só ele enchia a sala, devorava todos os manjares e dançava por uma súcia inteira. Acabada a festa, o cavalheiro misterioso convidou o homem rico para uma festa em seu palácio e desapareceu, quando a aurora vinha raiando.

Um mês depois um pajem veio buscar o homem rico para a festa do dançador misterioso do São João. Os olhos do homem rico foram vendados e os dois se puseram a caminho. Chegariam à meia-noite. O palácio do anfitrião não era longe de Santa Maria de Taguatinga. Barrancos e valados, brenhas e barrocais, matas e tabuleiros transpuseram os dois caminhantes.

Afinal chegaram, a venda caiu e uma elegante habitação maravilhou o hóspede da casa da encosta ao sopé da serra da Taguatinga.

Atravessado o pórtico dourado, penetraram em um grande salão e ali, maliciosamente, estavam enfileirados os vestidos curtos e os sapatinhos de salto alto de Formosa, as impudicas "toilettes" da Baía e os "maillots" cariocas. Noutra sala o homem rico viu uma porção de cavalheiros conhecidos: o Cel. F. F., o Major C. B. e Sr. H. M., etc., etc., pessoas há muito falecidas. Um cheiro de enxofre espalhou-se neste momento, por todo o palácio …

E o homem rico compreendeu tudo:

Estava no palácio do diabo …

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I. G. Americano do Brasil: Lendas e Encantamentos do Sertão. - Edições e Publicações Brasil, São Paulo, 1938, pp. 49-50. - Fonte: Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso. Seleção de Regina Lacerda. Desenhos de J. Lanzelotti. Ed. Literat. 1962.


ANEDOTAS & PIADAS 35

 

ROSINHA DA PITANGUINHA (MACEIÓ - AL)

 


Rosa, Hortência e Margarida — as três com nomes de flores — são filhas da professora Jacira e de Seu Jeremias, funcionário público exemplar, que morreu inesperadamente de um infarto durante sua caminhada matinal. Foi um grande choque para a família e os amigos.

Ulisses, amigo de Jeremias, inconsolável e prestativo, tentou consolar a viúva desde o cemitério. Como dispunha de tempo — aposentado precocemente —, tratou dos papéis da pensão. Foi um longo trabalho em cartórios e repartições. Passaram-se quase três meses nesse vai e vem, o que consolidou uma amizade, um bem-querer entre os dois. Jacira, apesar de sessentona, é conservada, bonita e desejável. Os dois acabaram se envolvendo em um motel na praia de Jacarecica. Passaram mais de um ano encontrando-se furtivamente, até que resolveram contar à família. Afinal, Ulisses é um homem livre, divorciado, sem filhos.

Mesmo sem a aprovação unânime da família, Ulisses juntou seus trapos e foi morar na casa da bela Jacira, viúva de seu amigo Jeremias, cujo retrato colorido enfeita a parede da sala, sorrindo aos visitantes.

As filhas mais novas, Hortência e Margarida, já casadas, viviam com seus maridos e filhos. Jacira ficou morando na casa da Pitanguinha com a filha Rosa. Apesar de um corpo escultural e um traseiro atraente, Rosa não é considerada bonita: tem a boca curvada para um dos lados e certa dificuldade na fala, problema decorrente de um parto complicado. Cresceu, estudou, sofreu humilhações e zombarias — hoje chamadas de bullying. Desenvolveu, naturalmente, um complexo de inferioridade. Penou muito na escola e na rua. Durante a adolescência, teve vontade de se matar. Sempre suportou sua amargura em silêncio.

Fez vestibular e formou-se assistente social — profissão que escolheu por permitir ajudar os outros.

Mesmo sem beleza, teve namorados ao descobrir um dom de nascença: encantar um homem na cama. Criativa e instintiva, seus parceiros se extasiavam. Certo engenheiro chegou a propor casamento, mas ela recusou, temendo uma decepção amorosa. Assim foi vivendo. Rosa prestou concurso e, em pouco tempo, tornou-se uma das melhores funcionárias da Secretaria de Educação. Tem prazer em ser pontual e trabalhar com dedicação. Sente-se recompensada pelo trabalho.

Rosa mantinha seu quarto bem cuidado e sempre trancado. Escrevia poemas, mas não queria que ninguém os lesse. Quando soube do relacionamento entre Jacira e Ulisses, compreendeu a necessidade da mãe de ter um companheiro e não criou problemas, como fizeram as outras filhas.

Jacira trouxe Ulisses para morar em sua casa. Rosa se deu bem com o “padrasto”. Ele lhe dedica atenção e carinho especiais. Ela gosta de servir uísque e preparar tira-gostos para ele e seus amigos nos fins de semana, na calçada de casa.

Certo dia, Ulisses trouxe uma novidade. Contou, com certo receio — afinal, o assunto era delicado —:

— Rosinha, conheci um cirurgião plástico. Mesmo sem seu consentimento, mostrei a ele sua fotografia. Ele afirmou, convicto, que pode corrigir sua boca com uma cirurgia e melhorar bastante sua aparência. Você topa?

No dia seguinte, Rosa foi à consulta, fez os exames necessários, gastou suas economias e submeteu-se a uma operação delicada e longa. Após um mês, retiraram-se as ataduras. Ao se olhar no espelho, irradiou felicidade. Não que tivesse se tornado bonita, mas sua aparência melhorara bastante. E passou a falar normalmente.

Rosa ficou profundamente agradecida e tornou-se amiga íntima e confidente de Ulisses. Com o tempo, a proximidade entre os dois se intensificou, até que, certo dia, aconteceu o inevitável. Desde então, uma ou duas vezes por semana, encontram-se em um motel. Rosa, dedicada e habilidosa, entrega-se com intensidade, deixando Ulisses extasiado, relaxado e feliz.

Jacira começou a desconfiar da relação entre os dois — hoje, tem certeza. Generosa, finge nada saber e deixa a vida seguir seu curso, compartilhando seu homem com a filha sofrida, Rosa, pessoa com aparência física pouco agradável da Pitanguinha.

Texto Original de Autoria de Carlito Lima


A ORIGINAL E A VERSÃO #18

   A música é uma linguagem universal. Algumas canções atravessam décadas, oceanos e idiomas, ganhando novas interpretações, novos sentidos e novas emoções. Muitas delas nasceram em um país e foram recriadas no Brasil e em várias partes do mundo, provando que uma boa melodia não pertence a um só  povo, mas à humanidade inteira. 

Trio de Ouro (Erivelto Martins, Dalva de Oliveira e Nilo Chagas - Ave Maria no Morro - Scorpions - Ave Maria no Morro (Interpretação ao vivo).
 ***A música Ave Maria no Morro é de Autoria de Herivelto Martins***



O Trio de Ouro foi um dos grupos vocais mais importantes da música popular brasileira (MPB), formado em 1937 no Rio de Janeiro. Sua formação clássica e mais famosa consistia em Dalva de OliveiraHerivelto Martins e Nilo Chagas. O grupo destacou-se na Era do Rádio, apresentando-se frequentemente no Cassino da Urca.
  • Formação Clássica: Dalva de Oliveira (voz), Herivelto Martins (violão/voz) e Nilo Chagas (violão/voz).
  • Fundação: Criado por Herivelto Martins em 1937, inicialmente chamado de "Dalva de Oliveira e a Dupla Branco e Preto".
  • Sucessos: Ficaram famosos com músicas como "Ave Maria no Morro", "O Bonde de Santa Tereza" e "Calado Venci".
  • Mudanças: Após a separação de Dalva e Herivelto, o grupo teve outras formações, incluindo Lourdinha Bittencourt e Shirley Dom.
Outro contexto: Em ficção, "Trio de Ouro" também refere-se aos protagonistas da série Harry Potter: Harry PotterHermione Granger e Ron Weasley

Scorpions é uma banda Alemã de rock, originária de Hanôver, fundada em 1965 por Rudolf Schenker, sendo a primeira banda de hard rock formada no país germânico. No início eram chamadas de Nameless, depois passou para The Scorpions até o final de 1969, depois foram chamados simplesmente de Scorpions.QUER SABER MAIS SOBRE A BANDA SCORPIONS? ENTÃO, CLIQUE AQUI


ANEDOTAS & PIADAS #53