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sexta-feira, 1 de maio de 2026

O ASSALTO


Dona Zulmira teve dois filhos, dois Zé: Zé Miguel e Zé Gabriel, para diferençar chamou o menor de Zé Pequeno, o apelido pegou, até hoje os mais íntimos só o chamam de Zé Pequeno, sem cerimônia. Tornou-se um ótimo comerciante, chegado às mulheres, era solteirão convicto até a chegada de Jandira, uma gostosa prima, há muitos anos morando no Rio de Janeiro. Zé Pequeno ficou encantado com aquela vistosa mulher, loura, vestido decotado, divertida, sem meias palavras dizia o que vinha na cabeça, tetas exuberantes, sorriso desavergonhado. Escandalizou a família e o bairro. Era segredo o trabalho daquela jovem no Rio. Entretanto, Zé Pequeno sabia o que queria, sem preconceitos, terminou casando-se com a bela Jandira. Os amigos, os desocupados, previram um belo par de chifres no Zé Pequeno. Com sete meses de casados telefonaram para Zé Pequeno, fuxicando. Sua distinta estava de abraços com um rapaz, um surfista da praia da Jatiúca. Zé pegou-a saindo do motel. Não houve acordo, houve escândalo. Foi a crônica da galha anunciada.

Zé Pequeno passou um tempo se entregando aos cabarés. Certo dia entrou na sua loja de material de construção, Angelita, colega de infância, pouco estrábica, sem muitos predicados da beleza feminina. Logo Zé Pequeno casava novamente, sem medo de levar ponta.

Os anos se passaram, os dois se deram bem, cada qual no seu canto sem se intrometer na seara do outro. Angelita tem butique de moda jovem, ganha para seu sustento. Tiveram dois filhos. Entretanto, tem duas manias incuráveis: ciúme doentio pelo baixinho, seu marido, e neurótica da violência urbana. Ela lê tudo sobre assalto, assassinato, sequestro. É sua conversa predileta. Sabe de todas as histórias contadas no rádio, televisão e jornais. No fundo, ela ama o alarmismo da imprensa, parece que faz bem à sua mente, se alimenta de fatos tenebrosos. Reconta as histórias preferidas.

Numa bela tarde de sábado, Angelita foi a uma palestra sobre violência urbana, não poderia perder. O conferencista expôs sua teoria. A violência existe, entretanto, a maioria dos crimes está na faixa entre 16 e 26 anos, entre os traficantes, eles se matam por pontos de venda e lideranças. De repente perguntou à plateia quantas vezes alguém tinha sido assaltado e quantas pessoas conheciam que foram assaltadas. Apenas duas mulheres se pronunciaram. Angelita pensou, tentou relembrar algum caso com algum amigo, não lembrou. Foi para casa decepcionada, não conhecia um parente, um amigo que foi realmente assaltado, frustrante para sua neura.

Nessa mesma tarde, Zé Pequeno telefonou para uma amiga moradora do Trapiche, cafetina das melhores garotas de programas da cidade. Apanhou a jovem, bonita, alta. Janice, a alcoviteira, sabia o gosto do cliente. Levou-a para um motel. Tarde agradável, alguns uísques, até que na hora do banho ZÉ Pequeno escorregou, caiu de costa, nuca no chão, abriu-lhe a cabeça, o sangue jorrou. Foi ao Pronto Socorro, sutura, alguns pontos na cabeça. Zé começou a pensar o que dizer em casa. Imediatamente dirigiu-se à Delegacia de plantão, deu parte, abriu um Boletim de Ocorrência, tinha sido assaltado, levaram o carro, com ele dentro. Pararam na praia de Ipioca, deram-lhe uma coronhada, desmaiou. Acordou-se depois de algum tempo, levaram carteira, dinheiro, ainda bem que deixaram o carro e ele, vivo.

Ao contar a história do assalto em casa, veio um fluxo de felicidade e alegria de dentro de Angelita, ela não conteve o sorriso de satisfação. Ouviu atentamente a história do marido, logo saiu contando para toda vizinhança como Zé Pequeno foi assaltado. Há mais de um mês é seu único assunto. O assalto ao Zé acabou a frustração de Angelita. Seu grande ídolo agora é o marido.

Autor : Carlito LIma

quinta-feira, 9 de abril de 2026

O BOM DO ALZHEIMER!

 


Aos 82 anos de idade, Francisco se casou com Maria, de 27 anos, que, em consideração ao marido tão idoso, decidiu que deveriam dormir em quartos separados. Assim, cada um ficaria mais à vontade na noite de núpcias.

Terminada a festa do casamento, cada um foi para o seu quarto. Maria se preparava para deitar quando ouviu uma batida forte na porta.

As batidas insistiam… Ao abrir a porta, ela se deparou com Francisco, aos 82 anos, pronto para entrar em ação.

Tudo correu bem após uma relação quente e vigorosa. Francisco despediu-se e voltou para o seu quarto.

Passados alguns minutos, Maria ouviu novas batidas na porta. Era Francisco, novamente pronto para outra ação.

Maria se surpreendeu, mas o deixou entrar. Terminada a relação, Francisco beijou Maria carinhosamente e se despediu, indo para o seu quarto.

Maria se preparava para dormir novamente quando escutou fortes batidas na porta. Espantada, abriu e se deparou com… Francisco! Mais do que pronto para a ação, com aspecto vigoroso e renovado.

E Maria disse, espantada e surpresa:

— Estou impressionada com o senhor, que, na sua idade, consegue repetir a relação com essa frequência… Já estive com homens com um terço da sua idade, e eles se contentavam com apenas uma vez. O senhor, Francisco, é um grande garanhão!

Desconcertado, Francisco perguntou:

— E eu já estive aqui antes?

SÓ ALEGRIA!

 

UMA VELHINHA FOI AO GINECOLOGISTA E  AO EXAMINÁ-LA O MÉDICO DISSE:

-ENGRAÇADO...A SENHORA COM A CABEÇA TODA BRANQUINHA E AQUI EM BAIXO TÁ TUDO PRETINHO AINDA.

ELA RESPONDEU: -DOUTOR, NA CABEÇA SÓ TIVE PREOCUPAÇÃO, ENQUANTO QUE AÍ EM BAIXO SÓ TIVE ALEGRIA.


terça-feira, 7 de abril de 2026

SEU ZÉ BRAZ E O ASSALTO AO VIGIA

 

Seu Zé Braz havia acabado de acordar.

Na verdade, já se levantara, lavara o rosto, escovara os dentes, penteara os cabelos brancos e já rareando, puxando-os para trás, e esperava o café ser posto à mesa tamborilando com os dedos sobre a madeira do grande móvel.

Já havia até ido lá fora, na calçada, onde cumprimentara Seu Zé Dudu, fiel escudeiro.

O dia ainda não era de todo claro.

Mais duas horas e estaria subindo a rampa da Prefeitura; pois, era o nosso prefeito naquele tempo.

Olhava ao redor com o corpo encurvado, braços apoiados na mesa desde os cotovelos. Nu da cintura para cima, a calça presa à cintura por um cinto de couro cru na mesma cor dos chinelões nos pés, abaixo das pernas formando um xis. Observava as frutas no encerado à sua frente.

Uma a uma as comidas eram colocadas à mesa.

Quando se preparava para fazer seu prato, após a xícara haver recebido o café fumegante, Seu Zé Dudu entrou apressado pela porta larga dando para a cozinha.

– Seu Zé! Seu Zé!

– Diga, Zé. O que é que há? – perguntou Seu Zé Braz já reconhecendo certa impaciência do velho empregado.

Lá fora, na área da casa, um vigilante noturno andava inquieto de um lado para o outro.

Seu nome eu vou preferir omitir nessa história, a fim de preservar nossa amizade.

No entanto, deixem-me chamá-lo de Seu João Vigia, pondo-lhe esse apelido em respeito à sua pessoa que, até hoje, nega veementemente a narrativa.

Pois bem, voltando àquela manhã mal começada, com a barra se avermelhando no nascente…

– Seu João Vigia está aí fora. Disse que foi atacado ontem de noite – declarou Seu Zé Dudu.

Seu Zé Braz franziu a testa, passou a mão no rosto e ordenou que deixasse o vigilante entrar.

Da porta da cozinha mesmo Seu João Vigia foi se aperreando em falar.

– Seu Zé, agora de madrugada eu fui atacado por dois má-condutas.

– E foi, João? – perguntou seu Zé Braz sem se alterar. – Me conte aí, como foi isso.

– Seu Zé, eu estava dando a volta no prédio quando vi que dois cabras corpulentos tinham pulado o muro para o lado de dentro. Eram dois cabrões assim – explicou Seu João Vigia levantando-se nas pontas dos pés e suspendendo os ombros, com os braços abertos, enquanto arregalava os olhos.

– Eu gritei “quem ‘tá aí?”, mas não veio resposta. Nisso eu tirei o revolver da cintura e encampei caçada, porque vi quando dobraram para dentro de uma sala e…

– Zé Dudu, dê um copo de água a João. Ele parece ainda muito abalado – pediu Seu Zé Braz sem nenhuma alteração facial ou na voz. – Continue, João.

– … empurrei a porta com um chute. Daí, fui entrando na sala com muito cuidado. E fui entrando, e fui entrando – contava Seu João Vigia encenando seu andar, representando cada uma das passadas, desde o chute na porta.

Seu Zé Dudu chegou com o copo entregou na mão de Seu João Vigia. O homem tomou de um gole e continuou.

– Só que como eu entrei com o braço do revólver assim, ó, na frente, um dos sujeitos se agarrou no braço e outro me atacou pelas costas. Me botaram no chão, Seu Zé.

– E por certo lhe mataram – ironizou Seu Zé Braz.

João Vigia, sem perceber o sarcasmo do prefeito, gritou um “não, senhor!” como quem diz “Deus me livre!”.

Depois passou a narrar uma luta corporal pelo chão, fazendo os gestos, imitando as quedas e contando as palavras ditas pelos dois má-condutas.

– Eram dois? – perguntava o tempo todo Seu Zé Braz.

– Era! – respondia convicto o vigilante. – E não era gente de Acari, pois eu num reconheci nenhum!

E continuava a sua narrativa da briga no chão.

De vez em quando Seu Zé Braz perguntava:

– Eram dois má-condutas?

– Era! – respondia com seriedade o vigilante.

Após a briga ter sido contada três vezes, cada uma delas com o acréscimo de um novo elemento, Seu Zé Braz lhe interrompeu e perguntou:

– Mas e daí, João. Pelo que estou vendo não chegaram a lhe ferir. O que queriam esses dois má-condutas? – perguntou enfatizando o “má-condutas”.

– O revólver, Seu Zé! Não levaram um tostão! Nem meu, nem da gaveta do apurado.

– Apenas o revólver? – perguntou Seu Zé Braz abrindo um pão ao meio com os polegares. – Os dois má-condutas levaram só o revólver?

O vigia com os olhos arregalados balançou a cabeça afirmativamente.

– Tem certeza que os dois má-condutas levaram seu revólver?

O queixo do vigia subindo e abaixando.

Seu Zé Braz tomou o primeiro gole de café. Partiu um pedaço de queijo, pôs no pão, depois na boca, mastigou e engoliu.

Na cozinha reinava um silêncio inquietante. Seu João Vigia de pé, ao lado de Seu Zé Dudu.

– Zé Dudu, em cima da mesa ali na sala tem um pacote. Traga aqui – pediu Seu Zé Braz.

O empregado girou sobre os calcanhares e saiu. Quando voltou trazia um saco de papel com o nome de um supermercado. Entregou a Seu Zé Braz.

O prefeito estirou a mão com o saco, ao encontro de Seu João Vigia.

– Pegue João.

O vigilante deu um passo à frente e segurou o pacote.

– Abra, hômi!

Quando Seu João abriu a boca do saco e olhou para dentro, foi logo arregalando os olhos.

– Meu revólver, Seu Zé?! – perguntou espantado.

Seu Zé Braz engoliu o que tinha na boca, tomou um gole do café e respondeu.

– Ô Jõao, deixe de ser tão mentiroso, hômi. Eu fui de madrugada lá e você ‘tava dormindo. Chega roncava. Parecia um porco reclamando fome. E o sono era tão grande que eu tirei o revólver de sua cintura e você nem sentiu.

Novo silêncio na cozinha.

– Dois má-condutas. Rhum! Hômi, tome tento.

Seu Zé Dudu já estava se segurando na braguilha da calça, para não se mijar de tanto rir.

Seu João Vigia, coitado,
Até hoje é meu amigo
Mas quando falo no caso
Ele ameaça “eu me intrigo”
O seu nome verdadeiro
Não falo nem por dinheiro
E morro! Mas, eu não digo.

Autor : Jesus de Ritinha de Miúdo

domingo, 5 de abril de 2026

O BANCO DE MINHA MÃE

 

A história é interessante e instrutiva.

No início da década de 1950, quando eu tinha 14 anos, meu velho era Representante de produtos farmacêuticos, sendo funcionário da Cia. Química Merck Brasil S. A. Ganhava bem mas viajava muito.

Tal missão lhe obrigava a permanecer durante 25 dias de cada mês, fora do convívio da família, viajando de trem, de ônibus e até na boléia de caminhões, por quatro estados nordestinos.

Era um tempo em que apenas a Caixa Econômica Federal de Pernambuco poderia ser considerada “o Banco do povão”. Mesmo assim, concentrando atividades para Pessoas Físicas apenas na carteira de “Depósitos para Poupança”. Daí, talvez, inspirando a atual denominação nacional: “Caderneta de Poupança”.

Nessa época nem se falava em pessoa modesta ser titular de conta em Bancos. Só possuíam talões de cheques, as grandes empresas ou donos de firmas.

Fui da mesma época – 1956 – em que, até funcionários do Banco do Brasil recebiam seus ordenados em envelopes. Não tinham direito a ter uma Conta Corrente a não ser que fossem clientes da Casa Bancária Magalhães Franco Ltda.

Arthur Guaraciaba Lins dos Santos, meu dito cujo pai, recebia seu suado dinheirinho em espécie, levava pra casa, selecionava os pagamentos do mês, colocava os valores devidos em pequenos envelopes, passando para mim a responsabilidade de efetuar os pagamentos. Tudo organizadinho.

Aproveitando as ausências de meu pai, mamãe se dedicava, com mais afinco, às costuras, geralmente de roupas infantis, da vizinhança. Havia um conchavo com meu velho para evitar roupas de adultos, incluindo, naturalmente, homens.

Mas é aí que a “porca torce o rabo”! Aliás, vale explicar o verbete de “Aurélio”: A expressão significa que se trata do momento decisivo, uma situação se complica e exige firmeza para ser resolvida, originando-se no meio rural, onde apartar brigas de porcos puxando-os pelo rabo era uma tarefa desafiadora.

Houve um tempo em que mamãe “se ajeitou” com a vizinha, que era esposa de um Sargento do Exército, o maestro Jair Pimentel.

D. Neuza, mãe de quatro filhos, portanto, sem muito tempo, para costurar encomendas de fardamentos para soldados do 14º Regimento de Infantaria, propôs dividir o trabalho.

Na maior moita minha velha topou e isso permitiu às duas, ganho maior. E para papai não entender que se tratava de costura de roupas masculinas, ela, por precaução, escondia os tecidos, já cortados para costurar, embaixo da cama do casal, perto do penico.

Mas era preciso ocultar o dinheiro auferido por essas tarefas. Quando recebeu a primeira “dinheirama”, decidiu guardar as cédulas nos livros de meu pai, numa estante envidraçada, que vivia fechada.

Certo dia, ao procurar uma cédula, não se lembrava em qual livro havia guardado os 50 Cruzeiros, que era significativo valor para a época e ficou muito preocupada porque teria que utilizar, doravante, novo esconderijo e não, simplesmente, a gavetinha da máquina Singer.

Requisitou-me para ajudá-la a desarrumar tudo e verificar em qual volume havia guardado a bufunfa.

Nunca imaginei que os livros do meu velho tivessem locais específicos, selecionados por assuntos. Cada qual o seu lugar. Mas, durante a procura, houve a mistura. Mas, felizmente, a cédula apareceu.

Dias depois, teve que anunciar ao “dono da biblioteca”, que havia cutucado seus livros, explicando que o dinheiro era de suas economias, sem falar nas roupas dos soldados, que era o ônus da prova de “infidelidade contratual”.

Não houve bronca, mas aproveitei para lhe dar um conselho:

“Mamãe, abra uma Caderneta de Poupança na Caixa para depositar suas economias, porque livro não é Banco pra se guardar dinheiro!”

A CRIANÇA QUE AINDA EXISTE EM CADA UM DE NÓS.

 

Jogo de “bila”

Tínhamos hora para tudo, lembro bem. Tínhamos hora para brincar, hora para dormir, hora para estudar e fazer o dever de casa – isso, claro, sem incluir a hora de obedecer e à quem obedecer.

O domingo era sagrado. Pela manhã a Santa Missa.

A tarde era livre para passear, para o cinema e, até mesmo para a Cidade das Crianças. Mudando da adolescência para a juventude, a manhã era do futebol ou da praia.

Assim, o que mudou do nosso tempo de criança para o tempo das crianças atuais?

A criação, respondo eu. A forma que os pais de hoje criam seus filhos – muito diferente da forma com que foram criados.

O pai de antigamente tinha o hábito de “passear com o filho de 16, 16 ou 18 anos” incentivando para que ele “começasse a gostar de mulher – no sentido sexual, mesmo”. Era um incentivo à iniciação.

Os pais de hoje mudaram. Optam por outras práticas, que, se por um lado são aceitas e compreendidas por boa parte da sociedade, por outro, precisarão ser aprovadas por Deus – e o ônus de tudo recairá sobre o pai, e, mais tarde, sobre o filho que aderiu a essas práticas.

Falo tudo isso porque, a primeira vez que entre num cabaré – lugar de antigamente, onde mulheres faziam sexo por dinheiro – quem me “conduziu e esperou pela consumação da prática”, foi um irmão mais velho, devidamente autorizado (também financiado) pelo meu pai.

Grosso ou não, sem educação ou não, mas pensando no “bom encaminhamento” do filho, quando um pai ouvia do filho algum pedido “fora do projeto de encaminhamento adotado”, respondia-lhe com um tabefe e um safanão, além de suspender por tempo indeterminado a “mesada das estripulias”.

Hoje é diferente. Hoje, se um pai ouve um pedido estrambótico de um filho, tipo:

– Paizão, meus seios cresceram bastante com a medicação que tomo. Estou precisando de um “soutien”!

Em resposta, totalmente diferente do pai de antigamente, escuta:

– Bebê, qual é a cor que você prefere e a pontuação adequada?!

Arre égua!

É assim, ou não é?

Com visão futurística, os pais e mães de antigamente ensinavam os filhos a obedecer. Em qualquer lugar ou situação, na ausência dos pais, os irmãos mais velhos tinham que ser obedecidos. Eles, os irmãos mais velhos, seriam punidos se, nessas situações, não se fizessem obedecer.

Outra vertente infantil era a brincadeira. A forma de brincar, e com o que brincar.

As escolas adotavam na grade curricular, uma matéria rotulada de “Trabalhos Manuais”, que era um incentivo ao desenvolvimento e ao despertar dos jovens em algum tipo de profissão. Também, como incentivo, havia na grade curricular a matéria “Canto Orfeônico”, forma de despertar na juventude o gosto pela música, como Músico.

Em casa os pais “ajudavam” dando aos filhos, não um “soutien”, mas, uma serra tico-tico, um alicate, pregos, serrote e madeira para que eles fizessem os seus próprios brinquedos.

Felizmente, ainda não havia Fábrica Estrela, fabricante dos brinquedos plásticos – o que acabou eliminando qualquer tipo de incentivo à juventude.

Foi assim que apareceram o Mestre Vitalino e a Zabé. Primeiro em casa, depois a profissionalização para custear a vida.

O currupio

Lembro bem que andávamos horas à procura de tampinhas de garrafas. Com elas fazíamos brinquedos mil – mas o preferido era o “currupio”, onde fazíamos dois furos e neles passávamos um barbante. Tal qual a foto postada acima.

Navegação nos mares para a guerra

O pior castigo que os pais de antigamente aplicavam aos filhos, era “proibir de brincar”. Qualquer que fosse a brincadeira. E aquilo doía. O “não brincar” era um castigo muito maior que o próprio castigo.

Quantas vezes, punido justamente por algum malfeito, eu ia para o quintal. Ali, cumprindo castigo, era esquecido pelos de casa por várias horas. Era nesse momento que os anjos da bondade tomavam conta de mim.

Eu pegava uma bacia, enchia de água até as bordas superiores. Transformava aquela bacia num açude e às vezes, até num oceano, onde navegavam meus barquinhos de papel – que eu aprendera fazer, também, durante as aulas de “Trabalhos Manuais”!

O castigo se transformava em algo lúdico, bom, poético e uma prática escolar ganhava valor.

Autor do Texto : José Ramos

sexta-feira, 6 de março de 2026

O HOMEM DA COBRA


Na feira municipal de Nova-Cruz (RN), que acontecia às segundas-feiras, entre várias pessoas e situações hilárias, havia também o “homem da cobra”. O apelido não era porque ele falasse muito, como falava o homem da “cobra” ou da cobrança, de antigamente, mas, simplesmente, porque ele chegava à feira portando uma mala, que era o cativeiro de uma cobra. Essa cobra era o seu ganha-pão. Dela ele tirava o seu sustento e o da sua família. Tratava-se de uma Jiboia, de pouco mais de um metro de comprimento.

Ao chegar à feira, ele tirava a Jiboia da mala, exibia aos feirantes, falando alto, e chamando a atenção de todos para a sua coragem, diante daquela serpente perigosa. Enrolava a cobra no pescoço, segurando-a pelos dois extremos, a cabeça e o rabo. Depois, enrolava a cobra nas pernas, e dava um verdadeiro “show” circense.

Enquanto isso, o seu ajudante passava o chapéu e recebia alguns trocados da plateia, que se deliciava com o perigo que o homem da cobra corria. Não se sabe se a plateia torcia pela cobra ou pelo seu dono. A exibição da Jiboia era sempre um sucesso.

Para comover e provocar a caridade pública, o homem da cobra contava, em voz alta, o seu infortúnio. Dizia ter perdido a esposa, de parto, tendo em casa seis filhos menores para alimentar.

Essa narrativa emocionava os feirantes, que procuravam ajudá-lo com algum dinheiro.

A Jiboia era asquerosa e causava medo. O local onde o seu dono a exibia ficava distante do armazém do nosso pai, Francisco Bezerra.

Mesmo não sendo venenosa, a Jiboia é uma serpente perigosa, por matar por constrição, envolvendo e esmagando sua presa. Mata por asfixia ou sufocamento. Alimenta-se de pequenos roedores, como camundongos e ratazanas jovens. Quando maiores, a Jiboia pode ser alimentadas de coelhos, lebres, ratazanas adultas e aves (frangos). Facilmente, pode ser encontrada no Brasil e pode ser criada em cativeiro.

Os trocados recebidos da plateia garantiam ao homem da cobra a compra de mantimentos para sua família. No final da feira, o chapéu estava cheio de “trocados”, e ele saía com o seu ajudante em direção a um caminhão velho, onde o motorista os aguardava.

Num certo dia, durante a exibição, a cobra escapuliu das mãos do seu dono e fugiu. Deu-se, então, o pânico entre os curiosos, que assistiam àquele espetáculo. O homem da cobra, que parecia um artista de circo, ficou desesperado.

Como sempre, aparece um “salvador da pátria”. Um feirante apontou para o lado para onde a cobra tinha se encaminhado. O dono, seu ajudante e outros homens, mais que depressa, correram ao seu encalço. Finalmente, viram quando a cobra entrou no quintal da nossa residência. Por sorte, estávamos todos no armazém. Em casa estava, apenas, a nossa fiel escudeira, Carmelita, que se encontrava na cozinha preparando o jantar. A mulher teve uma crise histérica, chegando a dar um “chilique”, quando ouviu o alvoroço dos homens na calçada, querendo entrar no nosso quintal à procura da cobra.

Quando a notícia chegou ao armazém do nosso pai, a cobra já havia sido capturada pelo seu dono, que não teve mais condições de voltar à feira.

O espetáculo do homem da cobra, na feira de Nova-Cruz, terminou aí…

***Texto de Violante Pimentel

sábado, 28 de fevereiro de 2026

O MONARCA DA AURORA (By: JH2)


Lá vem ele, o gigante de crista de brasa, Com passos de ferro que tremem o chão, Não é apenas ave que habita uma casa, É um bicho de lenda, um pequeno dragão.

Suas penas são mantos de seda e de ouro, Refletindo o brilho de um sol matinal, Dono do pátio, guardião do tesouro, Um rei sem coroa, de porte real.
Quando estica o pescoço pro azul do infinito, O mundo silencia pra ouvir seu clamor, Não é um canto, é um brado, um grito, Que acorda a semente e desperta a flor.
As asas imensas, como velas de barco, Batendo o compasso de um tempo ancestral, Seu peito estufado desenha um arco, No palco de terra do seu quintal.
Ó galo gigante, de olhar justiceiro, Que mira o horizonte com tal prontidão, És a alma viva de todo o terreiro, O dono do tempo e do meu coração.
(JH2)

ANEDOTAS & PIADAS #53