Inocêncio Ferreira, assíduo funcionário do Correios, trabalhando, sentado, conferindo carimbos e certidões, sentiu-se mal, suando frio, gritou para seus colegas:
– Socorro! Estou com dor no peito. Estou com…
Não terminou a frase, sua cabeça pendeu, caiu de bruços em cima do birô. Deitaram Inocêncio no chão, afrouxaram a roupa, uma jovem fez respiração boca-a-boca. Quando a ambulância chegou, estava morto.
Inocêncio era homem sério, austero, funcionário exemplar. Tinha 52 anos, 29 dedicados ao serviço público, nunca faltou um dia à repartição. Homem formal, não bebia, nunca fumou. Tinha um físico magro de dar inveja aos amantes da malhação. Não sabia que seu coração era fraco. Todos esses predicados enchiam de orgulho à esposa. Maria Augusta afirmava convicta.
– Homem sério e decente é Inocêncio, por ele ponho a mão no fogo. Os amigos concordavam. Apenas algumas amigas mais íntimas, diziam para si mesma que Augusta poderia queimar as mãos. Inocêncio tinha um divertimento, gostava de pescaria. Em fim de semana, muitas vezes, viajava com amigos para pescar no litoral Sul de Alagoas.
O campo santo Parque das Flores estava cheio de amigos e curiosos. Maria Augusta arrasada, muita comoção no cemitério. Os amigos abraçavam, consolavam. Por conta do estado emotivo, ela não percebeu que uma senhora desconhecida chorava além do normal. Muitos notaram quando uma mocinha de seus treze anos aproximou-se do caixão depositou uma rosa, teve acesso de choro e chamou Inocêncio de pai. Essa senhora retirou a jovem discretamente.
Ao terminar a missa de sétimo dia, a viúva foi procurada pela senhora, morena, bonita, cabelos escorridos, olhos irritados vermelhos.
– Dona Augusta, eu me chamo Josefa, preciso falar com a senhora, assunto de nosso interesse.
A viúva, que estava abraçada à sua única filha, Rosinha, de treze anos, convidou-a para tomar café em sua casa com os amigos. Os parentes mais próximos tomaram o lauto café da manhã, lembrando Inocêncio que deveria estar no céu àquela hora.
Depois que todos saíram, Augusta chamou a senhora para conversar na varanda. Josefa entrou no assunto, direta, sem preparar a viúva:
– Dona Augusta a senhora precisa saber agora, não se pode adiar. Eu e Inocêncio há alguns anos tivemos uma relação amorosa. Tenho duas filhas com ele. A mais velha, Rosália, é essa que está na sala conversando com sua filha. São irmãs, incrível, nasceram quase no mesmo dia.
Augusta arregalou os olhos, desnorteada com a imprevisível notícia. Foi um choque como se tivesse levado um coice no estômago. Não admitiu. Não podia acreditar. Respondeu aos berros para Josefa.
– Mentirosa, ponha-se para fora! Não manche o nome de meu marido!
A amante sem fazer barulho disse apenas com firmeza:
– A Senhora precisava saber. Eu aceitei ser amante porque amava Inocêncio. Ele não era um santo, como a senhora pensa. Tome meu cartão, telefone-me quando acalmar. Meu advogado vai procurar a senhora.
Saiu levando sua filha que havia adorado a nova amiga, sua meia irmã e não sabia.
Pela tarde, Lindalva, uma vizinha, bateu à porta. Augusta atendeu se lamentando, chorando:
– Descobri a traição! Eu era corna e não sabia!
Lindalva teve um choque. Começou a chorar e inesperadamente confessou com voz baixa.
– Desculpe Augusta! Agora que você descobriu, quero dizer que não tive culpa. Inocêncio quando me via começava a falar aquelas coisas bonitas. Era um finório na lábia. Juro que dei a primeira vez porque prometeu parar com aquelas cantadas. Peço perdão, pelo amor de Deus.
Augusta ficou atônica e estarrecida com a nova descoberta. Botou Lindalva para fora de casa. Chorou o resto do dia. Inconformada com as histórias amorosas do defunto, ficou reclusa em sua casa. Passou um tempo sem receber ninguém, com vergonha de ter sido uma idiota. Uma incontrolável raiva de Inocêncio apoderou-se de sua alma. Na noite da missa do 30º dia, ela reapareceu, escandalizando. Entrou na Igreja com um vestido vermelho, bem decotado e justo, transparecendo as bonitas pernas. Chocou mais ainda, quando, no final da missa, convidou as amigas para dar uma volta na noitada da cidade.
A partir dessa noite Augusta se liberou. Dá para quem tem vontade. Não perde as baladas de fim de semana. Quando entra em casa, bêbada, olha o retrato do marido com a filha e ela, pendurado na parede, e pragueja.
– Agora sou livre. Dou a quem eu quiser. Corno Véio!
Autor : Carlito Lima
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O chifre ali em cima não é decoração — é logo oficial da experiência.
Não é bar, não é clube… é instituição de acolhimento emocional coletivo.
Ali não tem julgamento — só confirmação.
O cara entra triste e sai… rindo da própria desgraça.
E o melhor: quem entra já sabe o motivo. Transparência total!
Aqui não se esconde nada — nem a dor, nem os chifres.
Fidelidade pode falhar, mas o humor… jamais.
Não é derrota — é associação.
Uns pagam terapia… outros entram pra confraria.
O sujeito não perdeu tudo — ainda ganhou um título honorário.
Isso aí é o Brasil na sua forma mais genial: transforma tragédia em piada e ainda pendura na parede com orgulho.
Por: Maurino Jr.
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MAIS:
"Corno" refere-se popularmente a uma pessoa traída pelo companheiro(a), sendo um termo pejorativo que denota infidelidade e, às vezes, aceitação da traição. Em contextos animais, descreve chifres permanentes de queratina, como em bois. O termo também pode ser usado no contexto de fetiches sexuais (cuckolding).
- Cornudo, chifrudo, traído, cornaça.
- Corno manso: Alguém que aceita a traição de forma passiva.
- Cuckold: Termo em inglês para marido traído.
- Como Insulto/Gíria: Usado para humilhar alguém que foi traído, sugerindo que a pessoa é fraca ou boba.
- Fetiche: Refere-se à prática sexual onde o parceiro sente prazer em ver o outro com terceiros.
- Biologia: Estrutura óssea revestida de queratina que cresce continuamente, comum em bovinos (diferente de galhadas de cervos, que caem).
- Uso Popular/Humorístico: A "cultura do corno" é frequentemente explorada em piadas, músicas sertanejas e na cultura popular brasileira.
- Corno manso: O que sabe e aceita.
- Corno cagão: O que vê e não faz nada, agindo de forma covarde.










