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segunda-feira, 15 de junho de 2026

O JOVEM ESPANHOL

 



Carmencita Martínez, costureira, vivia em sua terra, Espanha. Bonita, mas infeliz, o marido alcoólatra, batia nela. Certo dia conheceu um brasileiro alegre, malandro; apaixonou-se. Combinaram, ela deixou o marido em Barcelona, fugiu de transatlântico para o Rio de Janeiro, levou o filho Alejandro de 12 anos. Durante a travessia do Oceano, outra decepção, flagrou seu novo amor abraçado com a camareira. Briga para lá, briga para lá, ficaram sem falar. Quando o transatlântico atracou na cidade de Maceió, Carmencita desceu para espreitar um pouco a cidade, quando conheceu as praias, ficou fascinada, retornou ao navio fez as malas, desceu para sempre, adotou a cidade nordestina como sua nova pátria. A fuga de Carmencita e seu filho aconteceu há 11 anos. Como excelente costureira, logo se adaptou. Hoje tem ótima clientela e vive com o filho num apartamento na praia de Ponta Verde.

Alejandro Martínez vinte três anos, mais de 1,80 metros de altura, corpo de atleta, cara bonita. Xodó das meninas na Faculdade de Direito.

Meses atrás, Alejandro iniciou, junto com colegas, a frequentar algumas aulas particulares de Direito Constitucional, matéria mais difícil da Faculdade e de todo o Brasil. Dora, a professora aposentada, cinquenta e poucos anos, senhora letrada, inteligente, de um bom humor notável. Dá essas aulas em seu apartamento para alunos da Faculdade, até para se ocupar, para se distrair. Tem ótimo salário de aposentada.

Dora foi muito poderosa nos bastidores da política. Nas brigas do poder ela metia a mão, elegantemente, protegendo seus partidários no emaranhado da corte. Seja no poder Executivo, Judiciário ou Legislativo, durante o mandato de seu amante governador, ela foi muito ouvida, teve poder de decisão. Esse poder conquistou pela inteligência, conhecimento de Direito, firmeza e posições tomadas, principalmente na cama.

A coroa tem ânsia de viver. O mais de meio século não deixou marcas na jovem alma. Corpo bem cuidado, bem moldado; com ajuda das academias e cirurgiões plásticos.

Mulher de muita leitura, gosta de fazer cursos, atualizar-se, aprender. Inventou esse curso de três meses, todas as quartas e sextas-feiras à noite. Os alunos são duas jovens e três rapazes. Alejandro a via como uma irmã mais velha, mas apreciava os decotes ousados dos vestidos de alegre professora.

Certa sexta-feira, terminando um trabalho em grupo; mais de duas horas de discussão numa mesa circular, deixaram a conclusão do trabalho para o outro dia, sábado às dez horas. Dora ofereceu um gostoso lanche: moqueca de siri mole, regado a vinho branco e uísque. Foi o ponto alto da noite. O grupo se divertiu até tarde, ouvindo boa música, papo alegre, inteligente. Alejandro dedilhando um violão, cantou: “Dora, rainha do frevo e do maracatu…”. Recebeu um beijo lambido no ouvido.

Dia seguinte logo cedo, Dora foi ao mercado comprou camarão e arabaiana. Ligou para todos os componentes do grupo, se desculpando, pedindo para adiar o trabalho para a quarta-feira. Não telefonou para Alejandro. Quando o espanhol, carregando livros e cadernos, embaixo do braço, pontualmente tocou a campainha, Dora abriu a porta do apartamento, com um largo sorriso e um bom-dia. Estava maravilhosa de vestido azul claro bem decotado, colado ao corpo, sapato alto. Alejandro estranhou quando sua amiga falou no trabalho adiado. Convidou-o para entrar, seria uma companhia agradável se ficasse para bebericar um pouco.

Sentaram-se na varanda com vista para a praia, o mar e as palhas dos coqueiros. O uísque rolou, bons tira-gostos, até Dora servir o peixe com camarão. Almoço divino.

Ao voltar para a varanda, tomaram licor. Eram três horas quando Dora colocou uma música suave, americana, iniciava: “Heaven I’am heaven…”, isso é, “Paraíso, estou no paraíso”. Alejandro deu-lhe a mão, saíram dançando, escorregando pela sala, ele cantava a canção em seu ouvido, puxava seu corpo com vigor, iniciaram uma seção de carinho e carícias. Beijaram-se. Ela sussurrou, pediu para ser levada ao quarto. Num impulso, colocou-a nos braços, empurrou a porta, entrou no quarto, soltando-a ternamente na cama. O resto é silêncio, como diria Shakespeare.

Depois dessa tarde de muito amor, os dois continuam se encontrando secretamente no mínimo duas vezes por semana no belo apartamento da coroa, que continua poderosa. Faz o que quer do jovem espanhol.

Autor: Carlito Lima

quarta-feira, 6 de maio de 2026

PROPOSTA MODERNA


 – Meu irmão, há algum tempo precisava falar com você, pode me dar alguns minutos? Vamos pegar essa mesa.” Disse Marília abraçando Hugo ao encontrá-lo no Shopping.

Feliz em encontrar a irmã querida, Hugo Sanchez puxou uma cadeira, sentou-se, pediu dois chopes no início daquela tarde de sexta-feira. Ela foi direto ao assunto.

– Hugo querido, só nós dois é que sabemos o quanto nos amamos, sou louca pelo meu irmãozinho desde criança, nossas afinidades são parecidas. Você casou-se, separou-se, agora está solteiro novamente, aos 40 anos. Nunca dei palpite em sua vida amorosa, boêmia e escandalosa. Desculpe eu estar me intrometendo em seu novo namoro, você falou levemente em casamento. Nada de pessoal contra Kalu, até gosto da moça, 10 anos mais nova, parece equilibrada e sensata. Acontece que, informaram-me um pequeno detalhe de sua vida pessoal, tenho obrigação de lhe passar, não quero que seja enganado. Uma fonte fiel confidenciou-me, ela é sapatona, ou melhor bissexual, tem um caso com aquela morena, andam muito juntas, se diz sobrinha. Sabendo do fato, seria uma traição por omissão não contar-lhe esse pequeno detalhe.

Hugo respirou fundo, tomou dois goles de chope, pensou, pensou, pensou, respondeu à irmã ainda no impacto emocional da notícia.

– Obrigado Marília, você agiu bem, não poderia ser de outra forma, francamente, nunca desconfiei da bissexualidade de Kalu. Eu até gosto muito de sua sobrinha Geísa, nada me fez perceber essa opção sexual de Kalu, ela gosta de homem, tenho certeza Vou pensar no que fazer. Obrigado minha irmã.

Hugo pediu mais chope, passaram a tarde conversando.

Eram nove horas da noite quando Hugo encontrou Kalu na Barraca Pedra Virada, acompanhada de Geísa, tomaram chope, uísque, tira-gosto, jantaram quase meia noite. Duas horas da manhã deixaram Geísa em casa, dormiram no apartamento, amaram-se, Hugo nunca mais havia passado uma noite de amor com tanta intensidade. Pela manhã do sábado resolveram dar um mergulho na praia do Francês, bebericar até o final da tarde. Kalu perguntou se podia convidar Geísa.

Tudo bem disse Hugo, mas, quero uma conversa antes. Foi claro e taxativo com a namorada.

– Kalu, estamos mais de dois anos juntos, somos adultos, lhe amo, tenho de ser sincero. Sua amizade com Geísa vem atiçando a maldade alheia, vieram me fuxicar de um relacionamento íntimo seu com Geísa, que vocês são um caso, é o boato corrente nas rodas da boemia.

Kalu ouviu olhando nos olhos do namorado, baixou a cabeça, respirou fundo, encarou-o novamente, abriu seu coração com franqueza.

– Hugo querido, é verdade, eu tenho essa opção sexual a mais, sou bissexual, a Geísa não é minha parente. Eu estava esperando um momento apropriado para abrir o jogo, lhe confessar. Conversei muito com Geísa, temos uma proposta, você pode se chocar, francamente não sei sua reação. Minha única certeza é que lhe amo, quero você, quero ficar com você, não importa se casados ou juntados. Minha proposta é meia louca, entretanto, foi bem pensada, amadurecida: Adicionar Geísa em nosso relacionamento. Peço apenas a você, conversar com Geísa, sinta como é uma pessoa boa, entre em suas intimidades, depois me diga se aceita a situação, sem compromissos.

Hugo Sanchez teve um impacto com aquela inusitada proposta. Conversou, passou algumas tardes com Geísa. Não precisou muito tempo para definir-se. Estão em período de adaptação, tiraram férias juntos, passeando pela bela Cartagena das Índias, Colômbia. O mais caro foram as três passagens de avião.

Autor: Carlito Lima

sexta-feira, 1 de maio de 2026

O ASSALTO


Dona Zulmira teve dois filhos, dois Zé: Zé Miguel e Zé Gabriel, para diferençar chamou o menor de Zé Pequeno, o apelido pegou, até hoje os mais íntimos só o chamam de Zé Pequeno, sem cerimônia. Tornou-se um ótimo comerciante, chegado às mulheres, era solteirão convicto até a chegada de Jandira, uma gostosa prima, há muitos anos morando no Rio de Janeiro. Zé Pequeno ficou encantado com aquela vistosa mulher, loura, vestido decotado, divertida, sem meias palavras dizia o que vinha na cabeça, tetas exuberantes, sorriso desavergonhado. Escandalizou a família e o bairro. Era segredo o trabalho daquela jovem no Rio. Entretanto, Zé Pequeno sabia o que queria, sem preconceitos, terminou casando-se com a bela Jandira. Os amigos, os desocupados, previram um belo par de chifres no Zé Pequeno. Com sete meses de casados telefonaram para Zé Pequeno, fuxicando. Sua distinta estava de abraços com um rapaz, um surfista da praia da Jatiúca. Zé pegou-a saindo do motel. Não houve acordo, houve escândalo. Foi a crônica da galha anunciada.

Zé Pequeno passou um tempo se entregando aos cabarés. Certo dia entrou na sua loja de material de construção, Angelita, colega de infância, pouco estrábica, sem muitos predicados da beleza feminina. Logo Zé Pequeno casava novamente, sem medo de levar ponta.

Os anos se passaram, os dois se deram bem, cada qual no seu canto sem se intrometer na seara do outro. Angelita tem butique de moda jovem, ganha para seu sustento. Tiveram dois filhos. Entretanto, tem duas manias incuráveis: ciúme doentio pelo baixinho, seu marido, e neurótica da violência urbana. Ela lê tudo sobre assalto, assassinato, sequestro. É sua conversa predileta. Sabe de todas as histórias contadas no rádio, televisão e jornais. No fundo, ela ama o alarmismo da imprensa, parece que faz bem à sua mente, se alimenta de fatos tenebrosos. Reconta as histórias preferidas.

Numa bela tarde de sábado, Angelita foi a uma palestra sobre violência urbana, não poderia perder. O conferencista expôs sua teoria. A violência existe, entretanto, a maioria dos crimes está na faixa entre 16 e 26 anos, entre os traficantes, eles se matam por pontos de venda e lideranças. De repente perguntou à plateia quantas vezes alguém tinha sido assaltado e quantas pessoas conheciam que foram assaltadas. Apenas duas mulheres se pronunciaram. Angelita pensou, tentou relembrar algum caso com algum amigo, não lembrou. Foi para casa decepcionada, não conhecia um parente, um amigo que foi realmente assaltado, frustrante para sua neura.

Nessa mesma tarde, Zé Pequeno telefonou para uma amiga moradora do Trapiche, cafetina das melhores garotas de programas da cidade. Apanhou a jovem, bonita, alta. Janice, a alcoviteira, sabia o gosto do cliente. Levou-a para um motel. Tarde agradável, alguns uísques, até que na hora do banho ZÉ Pequeno escorregou, caiu de costa, nuca no chão, abriu-lhe a cabeça, o sangue jorrou. Foi ao Pronto Socorro, sutura, alguns pontos na cabeça. Zé começou a pensar o que dizer em casa. Imediatamente dirigiu-se à Delegacia de plantão, deu parte, abriu um Boletim de Ocorrência, tinha sido assaltado, levaram o carro, com ele dentro. Pararam na praia de Ipioca, deram-lhe uma coronhada, desmaiou. Acordou-se depois de algum tempo, levaram carteira, dinheiro, ainda bem que deixaram o carro e ele, vivo.

Ao contar a história do assalto em casa, veio um fluxo de felicidade e alegria de dentro de Angelita, ela não conteve o sorriso de satisfação. Ouviu atentamente a história do marido, logo saiu contando para toda vizinhança como Zé Pequeno foi assaltado. Há mais de um mês é seu único assunto. O assalto ao Zé acabou a frustração de Angelita. Seu grande ídolo agora é o marido.

Autor : Carlito LIma

sábado, 25 de abril de 2026

MULHER DE VERDADE!

 


– Você tornou-se uma consumista compulsória, tudo que você vê você quer. Hoje, um carro japonês, semana passada, aqueles brincos de esmeralda, maior vaidade, você só pensa em luxo e riqueza.

Reclamava Haroldo à esposa em tom ameno, paternal, como se estivesse ensinando alguma lição caseira à uma filha. Estavam casados há pouco tempo. Haroldo sentiu um carinho especial por Gracinha desde o dia em que ela bateu à porta do escritório recomendada pelo deputado amigo. Como funcionária era medíocre, entretanto, sua beleza, sensualidade, juventude e doçura encantaram o chefe. Com três meses de emprego eles já se uniam corpo a corpo. Haroldo, 65 anos, comanda a construtora, fiel às diretrizes do Planalto, sabe percorrer os tapetes de Brasília em busca de obras e dinheiro. Rico, bem de vida, sócio laranja do deputado.

O início foi difícil. Ao se formar em engenharia Haroldo abriu a construtora, trabalhar para si, sem patrão, era o sonho. Amélia, primeira esposa, deu-lhe ajuda na organização da empresa, deu-lhe apoio, carinho, e dois filhos. Cozinhava, lavava e de manhã cedo lhe acordava na hora de ir trabalhar. Foi o sustentáculo da família por muitos anos. Nada valeu quando o marido se engraçou e a trocou por uma jovem funcionária, 28 anos, Gracinha.

Estavam conversando na varanda do apartamento em frente à praia. Gracinha, cheia de vida, alegria e astúcia, sabia levar o marido.

– Meu querido, você mesmo pede que me arrume nas festas, faço sucesso nos salões e reuniões sociais. Detesto cozinha, entretanto, na cama você é a melhor testemunha, sabe perfeitamente que jamais arranjará outra igual, mereço seus presentes. Se está com saudade daquela mulher sem vaidade, que preparava seu café na hora de trabalhar, volte para ela.

Haroldo tinha um encantamento pela nova mulher, não contrariava a esposa, achava-a infantil, porém, dava tudo que ela pedia, compensação da idade, da libido minguando.

– Não quero voltar ao passado. É que você faz tanta exigência, não sabe o que é consciência, nem vê que não sou mais rapaz. Ainda trabalho duro para manter o conforto de nosso apartamento de nossa casa de praia. Para mim, mulher só existe uma, sem você eu não vivo em paz. – Abriu-se num sorriso.

Gracinha levantou-se, dirigiu-se à cadeira onde estava Haroldo, abaixou-se, deu-lhe um beijo no pescoço, o decote generoso mostrou a beleza do corpo. O marido se excitou. Ela sentou-se no colo, respondeu cochichando ao seu ouvido:

– Posso ser gastadeira, entretanto, sempre lhe honrei, oportunidade de trair já tive nesses dois anos de casados, muitas cantadas recebi. Nunca reclamei de nossa diferença de idade. Quando você tenta e às vezes não consegue, lhe vejo contrariado, eu consolo, o que há de fazer? Depois com carícias e prazer faço tudo acontecer, com toda vaidade, eu sou mulher de verdade.

Haroldo segurou-a firme, procurou seus lábios, num beijo prolongado se abraçaram se enlaçaram na cadeira. A Lua refletindo no mar e os carinhos da amada deram-lhe sensação de poder, confiança e segurança. Levantou-a pelos braços até a cama. Amaram-se com maestria de Gracinha. Sábia, intuitiva, havia nascida para amar.

Ao terminarem, deitados contemplando o teto do quarto, Gracinha, às gargalhadas, comunicou ao marido.

– Tenho uma surpresa, comprei meu presente do Dia Internacional das Mulheres, duas passagens para Nova York, lua de mel na semana santa. Preciso fazer umas comprinhas, renovar meu guarda-roupa.

Haroldo feliz, sorriu; recebeu um cheiro, dormiu.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

ROSINHA DA PITANGUINHA (MACEIÓ - AL)

 


Rosa, Hortência e Margarida — as três com nomes de flores — são filhas da professora Jacira e de Seu Jeremias, funcionário público exemplar, que morreu inesperadamente de um infarto durante sua caminhada matinal. Foi um grande choque para a família e os amigos.

Ulisses, amigo de Jeremias, inconsolável e prestativo, tentou consolar a viúva desde o cemitério. Como dispunha de tempo — aposentado precocemente —, tratou dos papéis da pensão. Foi um longo trabalho em cartórios e repartições. Passaram-se quase três meses nesse vai e vem, o que consolidou uma amizade, um bem-querer entre os dois. Jacira, apesar de sessentona, é conservada, bonita e desejável. Os dois acabaram se envolvendo em um motel na praia de Jacarecica. Passaram mais de um ano encontrando-se furtivamente, até que resolveram contar à família. Afinal, Ulisses é um homem livre, divorciado, sem filhos.

Mesmo sem a aprovação unânime da família, Ulisses juntou seus trapos e foi morar na casa da bela Jacira, viúva de seu amigo Jeremias, cujo retrato colorido enfeita a parede da sala, sorrindo aos visitantes.

As filhas mais novas, Hortência e Margarida, já casadas, viviam com seus maridos e filhos. Jacira ficou morando na casa da Pitanguinha com a filha Rosa. Apesar de um corpo escultural e um traseiro atraente, Rosa não é considerada bonita: tem a boca curvada para um dos lados e certa dificuldade na fala, problema decorrente de um parto complicado. Cresceu, estudou, sofreu humilhações e zombarias — hoje chamadas de bullying. Desenvolveu, naturalmente, um complexo de inferioridade. Penou muito na escola e na rua. Durante a adolescência, teve vontade de se matar. Sempre suportou sua amargura em silêncio.

Fez vestibular e formou-se assistente social — profissão que escolheu por permitir ajudar os outros.

Mesmo sem beleza, teve namorados ao descobrir um dom de nascença: encantar um homem na cama. Criativa e instintiva, seus parceiros se extasiavam. Certo engenheiro chegou a propor casamento, mas ela recusou, temendo uma decepção amorosa. Assim foi vivendo. Rosa prestou concurso e, em pouco tempo, tornou-se uma das melhores funcionárias da Secretaria de Educação. Tem prazer em ser pontual e trabalhar com dedicação. Sente-se recompensada pelo trabalho.

Rosa mantinha seu quarto bem cuidado e sempre trancado. Escrevia poemas, mas não queria que ninguém os lesse. Quando soube do relacionamento entre Jacira e Ulisses, compreendeu a necessidade da mãe de ter um companheiro e não criou problemas, como fizeram as outras filhas.

Jacira trouxe Ulisses para morar em sua casa. Rosa se deu bem com o “padrasto”. Ele lhe dedica atenção e carinho especiais. Ela gosta de servir uísque e preparar tira-gostos para ele e seus amigos nos fins de semana, na calçada de casa.

Certo dia, Ulisses trouxe uma novidade. Contou, com certo receio — afinal, o assunto era delicado —:

— Rosinha, conheci um cirurgião plástico. Mesmo sem seu consentimento, mostrei a ele sua fotografia. Ele afirmou, convicto, que pode corrigir sua boca com uma cirurgia e melhorar bastante sua aparência. Você topa?

No dia seguinte, Rosa foi à consulta, fez os exames necessários, gastou suas economias e submeteu-se a uma operação delicada e longa. Após um mês, retiraram-se as ataduras. Ao se olhar no espelho, irradiou felicidade. Não que tivesse se tornado bonita, mas sua aparência melhorara bastante. E passou a falar normalmente.

Rosa ficou profundamente agradecida e tornou-se amiga íntima e confidente de Ulisses. Com o tempo, a proximidade entre os dois se intensificou, até que, certo dia, aconteceu o inevitável. Desde então, uma ou duas vezes por semana, encontram-se em um motel. Rosa, dedicada e habilidosa, entrega-se com intensidade, deixando Ulisses extasiado, relaxado e feliz.

Jacira começou a desconfiar da relação entre os dois — hoje, tem certeza. Generosa, finge nada saber e deixa a vida seguir seu curso, compartilhando seu homem com a filha sofrida, Rosa, pessoa com aparência física pouco agradável da Pitanguinha.

Texto Original de Autoria de Carlito Lima


terça-feira, 31 de março de 2026

CORNO VÉIO !

 


Inocêncio Ferreira, assíduo funcionário do Correios, trabalhando, sentado, conferindo carimbos e certidões, sentiu-se mal, suando frio, gritou para seus colegas:

– Socorro! Estou com dor no peito. Estou com…

Não terminou a frase, sua cabeça pendeu, caiu de bruços em cima do birô. Deitaram Inocêncio no chão, afrouxaram a roupa, uma jovem fez respiração boca-a-boca. Quando a ambulância chegou, estava morto.

Inocêncio era homem sério, austero, funcionário exemplar. Tinha 52 anos, 29 dedicados ao serviço público, nunca faltou um dia à repartição. Homem formal, não bebia, nunca fumou. Tinha um físico magro de dar inveja aos amantes da malhação. Não sabia que seu coração era fraco. Todos esses predicados enchiam de orgulho à esposa. Maria Augusta afirmava convicta.

– Homem sério e decente é Inocêncio, por ele ponho a mão no fogo. Os amigos concordavam. Apenas algumas amigas mais íntimas, diziam para si mesma que Augusta poderia queimar as mãos. Inocêncio tinha um divertimento, gostava de pescaria. Em fim de semana, muitas vezes, viajava com amigos para pescar no litoral Sul de Alagoas.

O campo santo Parque das Flores estava cheio de amigos e curiosos. Maria Augusta arrasada, muita comoção no cemitério. Os amigos abraçavam, consolavam. Por conta do estado emotivo, ela não percebeu que uma senhora desconhecida chorava além do normal. Muitos notaram quando uma mocinha de seus treze anos aproximou-se do caixão depositou uma rosa, teve acesso de choro e chamou Inocêncio de pai. Essa senhora retirou a jovem discretamente.

Ao terminar a missa de sétimo dia, a viúva foi procurada pela senhora, morena, bonita, cabelos escorridos, olhos irritados vermelhos.

– Dona Augusta, eu me chamo Josefa, preciso falar com a senhora, assunto de nosso interesse.

A viúva, que estava abraçada à sua única filha, Rosinha, de treze anos, convidou-a para tomar café em sua casa com os amigos. Os parentes mais próximos tomaram o lauto café da manhã, lembrando Inocêncio que deveria estar no céu àquela hora.

Depois que todos saíram, Augusta chamou a senhora para conversar na varanda. Josefa entrou no assunto, direta, sem preparar a viúva:

– Dona Augusta a senhora precisa saber agora, não se pode adiar. Eu e Inocêncio há alguns anos tivemos uma relação amorosa. Tenho duas filhas com ele. A mais velha, Rosália, é essa que está na sala conversando com sua filha. São irmãs, incrível, nasceram quase no mesmo dia.

Augusta arregalou os olhos, desnorteada com a imprevisível notícia. Foi um choque como se tivesse levado um coice no estômago. Não admitiu. Não podia acreditar. Respondeu aos berros para Josefa.

– Mentirosa, ponha-se para fora! Não manche o nome de meu marido!

A amante sem fazer barulho disse apenas com firmeza:

– A Senhora precisava saber. Eu aceitei ser amante porque amava Inocêncio. Ele não era um santo, como a senhora pensa. Tome meu cartão, telefone-me quando acalmar. Meu advogado vai procurar a senhora.

Saiu levando sua filha que havia adorado a nova amiga, sua meia irmã e não sabia.

Pela tarde, Lindalva, uma vizinha, bateu à porta. Augusta atendeu se lamentando, chorando:

– Descobri a traição! Eu era corna e não sabia!

Lindalva teve um choque. Começou a chorar e inesperadamente confessou com voz baixa.

– Desculpe Augusta! Agora que você descobriu, quero dizer que não tive culpa. Inocêncio quando me via começava a falar aquelas coisas bonitas. Era um finório na lábia. Juro que dei a primeira vez porque prometeu parar com aquelas cantadas. Peço perdão, pelo amor de Deus.

Augusta ficou atônica e estarrecida com a nova descoberta. Botou Lindalva para fora de casa. Chorou o resto do dia. Inconformada com as histórias amorosas do defunto, ficou reclusa em sua casa. Passou um tempo sem receber ninguém, com vergonha de ter sido uma idiota. Uma incontrolável raiva de Inocêncio apoderou-se de sua alma. Na noite da missa do 30º dia, ela reapareceu, escandalizando. Entrou na Igreja com um vestido vermelho, bem decotado e justo, transparecendo as bonitas pernas. Chocou mais ainda, quando, no final da missa, convidou as amigas para dar uma volta na noitada da cidade.

A partir dessa noite Augusta se liberou. Dá para quem tem vontade. Não perde as baladas de fim de semana. Quando entra em casa, bêbada, olha o retrato do marido com a filha e ela, pendurado na parede, e pragueja.

– Agora sou livre. Dou a quem eu quiser. Corno Véio!

Autor : Carlito Lima

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O chifre ali em cima não é decoração — é logo oficial da experiência.

Não é bar, não é clube… é instituição de acolhimento emocional coletivo.

Ali não tem julgamento — só confirmação.

O cara entra triste e sai… rindo da própria desgraça.

E o melhor: quem entra já sabe o motivo. Transparência total!

Aqui não se esconde nada — nem a dor, nem os chifres.

Fidelidade pode falhar, mas o humor… jamais.

Não é derrota — é associação.

Uns pagam terapia… outros entram pra confraria.

O sujeito não perdeu tudo — ainda ganhou um título honorário.

Isso aí é o Brasil na sua forma mais genial: transforma tragédia em piada e ainda pendura na parede com orgulho.

Por: Maurino Jr.

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MAIS:

"Corno" refere-se popularmente a uma pessoa traída pelo companheiro(a), sendo um termo pejorativo que denota infidelidade e, às vezes, aceitação da traição. Em contextos animais, descreve chifres permanentes de queratina, como em bois. O termo também pode ser usado no contexto de fetiches sexuais (cuckolding).

Sinônimos e Variações
  • Cornudo, chifrudo, traído, cornaça.
  • Corno manso: Alguém que aceita a traição de forma passiva.
  • Cuckold: Termo em inglês para marido traído.
Exemplos de Uso e Contextos
  • Como Insulto/Gíria: Usado para humilhar alguém que foi traído, sugerindo que a pessoa é fraca ou boba.
  • Fetiche: Refere-se à prática sexual onde o parceiro sente prazer em ver o outro com terceiros.
  • Biologia: Estrutura óssea revestida de queratina que cresce continuamente, comum em bovinos (diferente de galhadas de cervos, que caem).
  • Uso Popular/Humorístico: A "cultura do corno" é frequentemente explorada em piadas, músicas sertanejas e na cultura popular brasileira.
Tipos de Corno (no humor popular):
  • Corno manso: O que sabe e aceita.
  • Corno cagão: O que vê e não faz nada, agindo de forma covarde.
O termo também pode ser usado para descrever o instrumento de sopro "corno inglês" ou as pontas da lua crescente.


ANEDOTAS & PIADAS #53