Rosa, Hortência e Margarida — as três com nomes de flores — são filhas da professora Jacira e de Seu Jeremias, funcionário público exemplar, que morreu inesperadamente de um infarto durante sua caminhada matinal. Foi um grande choque para a família e os amigos.
Ulisses, amigo de Jeremias, inconsolável e prestativo, tentou consolar a viúva desde o cemitério. Como dispunha de tempo — aposentado precocemente —, tratou dos papéis da pensão. Foi um longo trabalho em cartórios e repartições. Passaram-se quase três meses nesse vai e vem, o que consolidou uma amizade, um bem-querer entre os dois. Jacira, apesar de sessentona, é conservada, bonita e desejável. Os dois acabaram se envolvendo em um motel na praia de Jacarecica. Passaram mais de um ano encontrando-se furtivamente, até que resolveram contar à família. Afinal, Ulisses é um homem livre, divorciado, sem filhos.
Mesmo sem a aprovação unânime da família, Ulisses juntou seus trapos e foi morar na casa da bela Jacira, viúva de seu amigo Jeremias, cujo retrato colorido enfeita a parede da sala, sorrindo aos visitantes.
As filhas mais novas, Hortência e Margarida, já casadas, viviam com seus maridos e filhos. Jacira ficou morando na casa da Pitanguinha com a filha Rosa. Apesar de um corpo escultural e um traseiro atraente, Rosa não é considerada bonita: tem a boca curvada para um dos lados e certa dificuldade na fala, problema decorrente de um parto complicado. Cresceu, estudou, sofreu humilhações e zombarias — hoje chamadas de bullying. Desenvolveu, naturalmente, um complexo de inferioridade. Penou muito na escola e na rua. Durante a adolescência, teve vontade de se matar. Sempre suportou sua amargura em silêncio.
Fez vestibular e formou-se assistente social — profissão que escolheu por permitir ajudar os outros.
Mesmo sem beleza, teve namorados ao descobrir um dom de nascença: encantar um homem na cama. Criativa e instintiva, seus parceiros se extasiavam. Certo engenheiro chegou a propor casamento, mas ela recusou, temendo uma decepção amorosa. Assim foi vivendo. Rosa prestou concurso e, em pouco tempo, tornou-se uma das melhores funcionárias da Secretaria de Educação. Tem prazer em ser pontual e trabalhar com dedicação. Sente-se recompensada pelo trabalho.
Rosa mantinha seu quarto bem cuidado e sempre trancado. Escrevia poemas, mas não queria que ninguém os lesse. Quando soube do relacionamento entre Jacira e Ulisses, compreendeu a necessidade da mãe de ter um companheiro e não criou problemas, como fizeram as outras filhas.
Jacira trouxe Ulisses para morar em sua casa. Rosa se deu bem com o “padrasto”. Ele lhe dedica atenção e carinho especiais. Ela gosta de servir uísque e preparar tira-gostos para ele e seus amigos nos fins de semana, na calçada de casa.
Certo dia, Ulisses trouxe uma novidade. Contou, com certo receio — afinal, o assunto era delicado —:
— Rosinha, conheci um cirurgião plástico. Mesmo sem seu consentimento, mostrei a ele sua fotografia. Ele afirmou, convicto, que pode corrigir sua boca com uma cirurgia e melhorar bastante sua aparência. Você topa?
No dia seguinte, Rosa foi à consulta, fez os exames necessários, gastou suas economias e submeteu-se a uma operação delicada e longa. Após um mês, retiraram-se as ataduras. Ao se olhar no espelho, irradiou felicidade. Não que tivesse se tornado bonita, mas sua aparência melhorara bastante. E passou a falar normalmente.
Rosa ficou profundamente agradecida e tornou-se amiga íntima e confidente de Ulisses. Com o tempo, a proximidade entre os dois se intensificou, até que, certo dia, aconteceu o inevitável. Desde então, uma ou duas vezes por semana, encontram-se em um motel. Rosa, dedicada e habilidosa, entrega-se com intensidade, deixando Ulisses extasiado, relaxado e feliz.
Jacira começou a desconfiar da relação entre os dois — hoje, tem certeza. Generosa, finge nada saber e deixa a vida seguir seu curso, compartilhando seu homem com a filha sofrida, Rosa, pessoa com aparência física pouco agradável da Pitanguinha.
Texto Original de Autoria de Carlito Lima

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