A última viagem do bonde
Londres, Paris, Rio de Janeiro ou São Luís, o desenho do destino será sempre o mesmo. Antes, anos que marcaram séculos, um dos mais tradicionais e poéticos meios de transporte.
Hoje, o romantismo da saudade. A falta que faz em algumas cidades. Outras, mantiveram as viagens dependuradas nas soleiras e a figura central do Motorneiro.
Até onde se sabe, em Londres, uma das primeiras ruas do Centro nobre a receber a circulação os bondes, foi a Pentonville Road, onde os primeiros testes aconteceram em 1883. Antes, haviam sido “puxados a cavalo”. Testados e aprovados, os bondes elétricos de Londres circularam de 1901 até 1952, quando foram extintos. Voltaram a circular a partir do ano 2000 e distribuem tradição e eficácia até hoje.
Em Paris, a Rue de Rivoli, próxima ao Louvre foi a premiada com a beleza desse meio de transporte.
Mas, os Arcos da Lapa, na área central do Rio de Janeiro continuam levando passageiros e turistas curiosos para Santa Teresa, onde hoje, infelizmente, vive o domínio dos traficantes de drogas.
Via de bondes montada sobre os Arcos da Lapa no Rio de Janeiro
Eufrásio era o nome dele. Figura esguia, descendente de família portuguesa. Em Lisboa aprendeu com o avô a se intrometer com o transporte público e a condução de bondes. Garantia que o avô dirigira um bonde puxado por duas parelhas de bons cavalos.
Em São Luís, foi morador do bairro Anil, por anos servido por bondes, inclusive bondes puxados a cavalos.
Bom conversador, relembrava as épocas áureas de Lisboa, onde dizia pretender voltar – ainda que fosse para ser enterrado.
Mas, voltando à Londres. Ali na terra da Rainha Elizabeth, Eufrásio seria Motorman, Tram driver ou ainda Streetcar operator/driver, designação distante da poesia que impregnamos na saudade.
Nas proximidades do Louvre, Seu Eufrásio não passaria de um Wattman ou Conducteur de tramway a desfilar pelas ruas centrais da Cidade Luz.
E, se algum dia retornasse à Lisboa, voltaria a ser conhecido como Guarda-freio ou Condutor de elétrico. Mas, distante algumas horas de Lisboa, no bairro do Anil, em São Luís, jamais passaria do simples Seu Eufrásio.
Seu Eufrásio vestido com “roupa de gala”
Entretanto, o destino das pessoas é desenhado e escrito ainda no ventre materno. Tudo que fará e viverá já está decidido. Assim, um misto de homenagem com decepção que seria guardada até a volta ao barro – e nunca para Lisboa – estava reservado para Seu Eufrásio.
A homenagem: conduzir o último bonde em circulação em São Luís, não para Lisboa, mas para o “cemitério” localizado no campus da UEMA, onde jaz. E de lá nunca mais sairá.
A decepção: nunca mais teria a chance de olhar as palmeiras onde ainda ecoam os cânticos dos sabiás na Praça Gonçalves Dias, um dos trajetos oficiais garantidos dos bondes.
O último bonde “depositado” como ferro velho no campus da UEMA
Hoje, diferentemente de Londres, Paris e Lisboa, São Luís que está inserida de forma mentirosa no combate à poluição e teve representante na COP30 dispensou esse transporte “despoluidor” e sepultou definitivamente o sonho do Seu Eufrásio, de um dia retornar em triunfo a Lisboa.
O emaranhado de trilhos que se estendiam do Anil e levavam ao Centro Histórico com passagens pela Praça Gonçalves Dias, já não nos permitem escutar o cântico dos sabiás.
Os trilhos estão soterrados pelo modernismo do asfalto, o sabiá parou de cantar, o último bonde está sendo destruído pela ferrugem e Seu Eufrásio, só Deus sabe onde está.
Os trilhos por onde passaram vidas, são hoje apenas lembranças
OBSERVAÇÃO: Fotos meramente ilustrativas – nada de reais.





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