Há quem considere Jorge de Lima, O maior poeta da língua portuguesa, foi também excelente romancista. No posfácio do romance Calunga compreendi a musicalidade da região das lagoas. Jorge afirma que os índios caetés acompanhavam os guerreiros na peleja incitando, tocando flautas e gaitas. Ainda hoje entre seus descendentes encontram-se exímios tocadores de pífano.
Depois dessa abertura, conto a história de amor acontecida na pequena cidade de Santa Luzia do Norte, à beira da Lagoa Mundaú. Como não sou de mentir, quem duvidar do meu escrito dou como testemunha, o ator global, poeta, diretor, Chico de Assis, nascido e criado naquela cidade e sobrinho do músico Otaviano de Assis Romeiro, que aos oito anos era excelente tocador de flauta. Otaviano tornou-se famoso como Maestro Fon-Fon no Rio de Janeiro e Europa. Alagoas se orgulha do célebre maestro e do Chico de Assis.
Em Santa Luzia do Norte havia uma pequena orquestra, dirigida pelo Maestro Wanderley, ele convocava os jovens da cidade para tocarem na Banda Municipal. Era uma atração da cidade; nos dias de festas, tocava até em povoados e cidades vizinhas. Durante o carnaval o povo se enchia de alegria com a Banda arroxando no frevo e a moçada alegre, pulando, dançando, cantando.
Certa vez o Maestro Wanderley recebeu a visita do jovem Manula, ele gostaria de tocar na banda. Ao fazer um teste com instrumento de sopro, Wanderley ficou fascinado com o talento do jovem negro, alto e bonito. Depois de um ano tocando na banda, Manula tornou-se atração com o som do piston, timbre focado e brilhante, ele tornava a música mais expressiva. Era o orgulho do Maestro descobridor de talentos.
Perto da casa de Manula, morava Inês, negra bonita, alta, sua beleza chamava a atenção. Ele a conheceu na Festa da padroeira, dia 13 de dezembro, dia de Santa Luzia. Inês ficou encantada com Manula quando ele tocou solo, a Ave Maria na Igreja. Os dois, daquele dia em diante, começaram a se encontrar, a namorar, sempre com o olhar vigilante dos pais que não queriam o namoro da filha com um músico, sem futuro.
Manula morava com a mãe viúva que recebia uma pensão. Dava para manter uma vida simples. Contudo, Manula tinha ambições e sonhos. Quando estava com Inês se sentia feliz, eram apaixonados, pensavam em casar assim que Manula pudesse sustentar a família. A ambição de Manula era entrar no Exército para tocar na Banda do Quartel e estudar música. As ambições se tornaram cada vez mais difíceis. Não havia emprego na cidade. Ele sempre pensando em Inês. Certa vez, o maestro Wanderley o levou para tocar em Maceió numa “Jazz Band” formada por militares, eles tocavam em festas de aniversários e de clubes. Ele foi aprovado. No final das festas Manula dava um show solo de jazz com piston ou trompete.
Depois da tocada ele retornava de Maceió logo cedo de canoa. Procurava Inês mostrava o que havia ganho no fim de semana. Em pouco tempo, por seu talento, ficou conhecido e nos finas de semana ganhava um dinheirinho, guardava, pensando no casamento com Inês, cada vez mais apaixonado. Certo sábado ele tocava na “Jazz Band” no Clube Fênix, acompanhando o show do cantor alagoano Alcides Gerardi que ficou encantado com o talento, com o som de Manula. Convidou-o a acompanhá-lo numa turnê pelo Brasil. Depois de conversar com Inês, mostrando quanto iria ganhar, partiu para turnê de seis meses Brasil afora. Não tinha tempo de escrever, não havia telefone DDD, Manula ficou meio ano sem ver seu amor.
Depois de seis meses retornou a Santa Luzia do Norte. Ainda navegando na canoa recebeu a notícia, a maior decepção de sua vida. Inês havia casado.
Entrou em casa, abraçou a mãe, meio aéreo, deitou-se na cama, entrou numa depressão profunda, não chorou, mas sentia uma dor profunda dentro das entranhas. Enterrou seu valioso piston no quintal. Todas as manhãs regava o “túmulo” do piston. Assim continuou por muito tempo. Até que chegou o carnaval. Quando a banda arrastava a mocidade pelas ruas, Wanderley teve a ideia, passaram na casa de Manula e tocaram o Vassourinhas, chamaram o grande músico para o Carnaval. Pela primeira vez depois de seu retorno, Manula sorriu. Foi ao quintal, desenterrou o piston, deu três sopros, se juntou aos amigos na frente do Bloco tocando seu som inconfundível. O Carnaval fez milagre, ressuscitou Manula.
By: Carlito Lima

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